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Educação ·

Cinema contra a LGBTfobia e o bullying na escola: material educativo gratuito de Entre Ecos e Corpos

Cena de Vem de Berço, videoinstalação da Rachadura Visual

Como falar de LGBTfobia e de bullying na escola sem transformar a aula num sermão? A aposta do projeto Entre Ecos e Corpos é o cinema: em vez de explicar, assistir, conversar e — principalmente — criar. O resultado é um material educativo gratuito para professoras e professores, com três atividades que partem de filmes da Rachadura Visual para trabalhar memória, identidade, corpo e pertencimento com estudantes do Ensino Fundamental e do Ensino Médio.

Por que levar esse debate para a sala de aula

A escola é, muitas vezes, o primeiro lugar onde uma criança ou adolescente percebe que é “diferente” — e também onde essa diferença vira motivo de piada, apelido e exclusão. Segundo a Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Educacional no Brasil (ABGLT, 2016), 73% dos estudantes LGBT relataram ter sofrido agressão verbal na escola por causa da orientação sexual, e cerca de 60% disseram se sentir inseguros no ambiente escolar.

Falar disso não é “tema de fora” do currículo. A BNCC pede, na competência geral 9, que a escola desenvolva empatia, diálogo e respeito, com “acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais (…) sem preconceitos de qualquer natureza”. A Lei 13.185/2015 instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, e desde 2024 o bullying é crime no Código Penal (Lei 14.811/2024).

Em 2019, o STF equiparou a LGBTfobia ao crime de racismo; em 2020, derrubou leis municipais que proibiam discutir gênero nas escolas.

Ou seja: há base legal, pedagógica e — sobretudo — humana para que o assunto entre na escola. O desafio é como.

O cinema como ponto de partida

Entre Ecos e Corpos é uma exposição de vídeos com curadoria de Gabi Bresola e produção da Ombu Produção, que circulou em 2026 por Criciúma (Sala Edi Balod, Unesc), Joinville (Galeria do CAD, Univille) e pela internet. Ela reúne três obras da Rachadura Visual que falam de experiências LGBTQIAPN+ a partir do interior — infância, fé, identidade, silêncio e desejo.

O material educativo nasceu para que essas obras não ficassem só na galeria. Ele parte de uma ideia simples, escrita logo na apresentação: Mais do que explicar os filmes, queremos convidar os estudantes a olhar, escutar, imaginar, criar e produzir suas próprias narrativas. O cinema aparece “não apenas como algo que assistimos, mas também como uma possibilidade de criar imagens, contar histórias, guardar memórias e imaginar outros futuros”.

Esse caminho é especialmente potente para combater a LGBTfobia e o bullying: quando a turma constrói junto uma narrativa sobre quem é, de onde vem e o que imagina para o futuro, a diferença deixa de ser alvo e passa a ser matéria-prima. Ninguém precisa “se expor”, e todo mundo é convidado a se reconhecer.

As três atividades

1. Vem de Berço — memória, identidade e imaginação

Para: Ensino Fundamental, do 5º ao 9º ano · Duração: 2 aulas · Classificação: livre · Áreas: Artes, Língua Portuguesa, História e Geografia.

Na videoinstalação, memórias de infância em cidades do interior se misturam a visões de um possível futuro, numa espécie de coreografia do cotidiano. Depois de assistir, a turma conversa sobre o que viu — “não é necessário chegar a uma única interpretação” — e cada estudante monta uma folha em três tempos: passado, presente e futuro.

A lembrança vira uma cena filmada com o celular e, em seguida, ganha uma segunda versão, com outro final possível. O produto é o vídeo “Uma memória, dois futuros”.

É um exercício precioso para os anos finais do Fundamental, quando o bullying costuma se intensificar: mostrar que existem muitas formas de ser — e que o futuro pode ser imaginado de outro jeito.

2. O Porão — memória, silêncio e escuta

Para: Ensino Médio, a partir de 14 anos · Duração: 2 a 3 aulas · Áreas: Artes, Sociologia, Língua Portuguesa, História e Filosofia.

O documentário parte de um arquivo familiar para perguntar como narrar histórias cercadas de tabu. Antes do filme, a turma reflete: arquivo é aquilo que guarda uma história — e o que acontece com aquilo que uma família decide não guardar? Depois, perguntas como “Quem tem o direito de contar uma história?” e “Como determinadas normas podem afetar a maneira como uma pessoa vive sua identidade?” abrem a conversa.

Em grupos, os estudantes criam um arquivo fictício — nome, objeto, imagem, frase, ausência e uma pergunta sem resposta — e o transformam num vídeo-ensaio de até 2 minutos: “O que ficou guardado?”.

O material é cuidadoso: ninguém é obrigado a compartilhar experiências pessoais, não é preciso mostrar rostos, e, se surgirem relatos de violência, a escola deve seguir seus protocolos de proteção e encaminhamento.

3. do peito da pele — poesia, corpo e imagem

Para: Ensino Médio · Duração: 2 a 3 aulas · Áreas: Artes, Língua Portuguesa, Sociologia e Filosofia.

O curta experimental — premiado em festivais no Brasil e no exterior — parte do poema “o que faremos com ele”, de Francisco Mallmann. Como o filme tem classificação 18 anos, a atividade pode ser feita só com o poema, sem exibir a obra. A partir de frases como “Eu venho de…”, “Eu carrego…”, “Eu não aceito…” e “Eu posso ser…”, cada estudante escreve seu poema e descobre como transformar palavras em imagens “sem simplesmente ilustrá-las”. O resultado é uma mostra de “Poemas em movimento”, vídeos de 1 a 3 minutos.

Como usar na sua escola

  • Respeite a classificação indicativa de cada obra (livre, 14 e 18 anos) e adapte as atividades à realidade da turma.
  • Garanta as autorizações de uso de imagem e voz antes de publicar ou enviar qualquer vídeo.
  • A participação é voluntária. O material reforça que ninguém precisa relatar a própria história para participar.
  • Os filmes podem ser assistidos na exposição online no site da Ombu Produção, no ar durante um ano.
  • Compartilhe o resultado: o projeto quer montar um pequeno arquivo audiovisual com os vídeos das escolas. Mande para oi@rachaduravisual.com.br.

Baixe o material educativo gratuito

São 16 páginas com objetivos, perguntas disparadoras, passo a passo e ficha de envio dos vídeos. Preencha seu nome e e-mail para liberar o download — também mandamos o link para a sua caixa de entrada.

Material educativo — Entre Ecos e Corpos

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Entre Ecos e Corpos foi realizado com recursos do Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Cultura, através do Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura – Edição 2024. Produção: Ombu Produção. Parceria: Rachadura Visual. Curadoria: Gabi Bresola. Conheça o projeto