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Exposições ·

Quando foi que você descobriu que era assim? — texto curatorial de Gabi Bresola

Visitante sentada no banco diante do monitor vertical com do peito da pele

Texto curatorial da exposição Entre Ecos e Corpos (2026), por Gabi Bresola.

Quando foi que você descobriu que era assim?

Que poderia ser assim? Como foi? Quando será que foi que as outras pessoas descobriram que eram a regra? Quando foi que pensamos que dissidência não era uma decisão? Quantas vezes a gente teve que escolher fugir? Quantas vezes a gente segurou o desejo? E a raiva?

Jota Mombaça fala “A memória é um campo de guerra: lembrar é sempre um gesto político. Arquivo não é aquilo que guarda, mas aquilo que decide o que pode ou não sobreviver”. A normatividade é uma inscrição degradante que atravessa nossos corpos desde o momento em que estamos dentro dos corpos de nossas mães, atravessa o corpo com útero, incessantemente tratado como público.

Começa na regra número zero: azul-rosa, menino-menina até alcançar as mais variadas formas de violência com o passar dos anos. A Castiel Vitorino escreveu que “Somos o arquivo vivo das violências que atravessaram nossos corpos — e também das estratégias que inventamos para sobreviver a elas.

A infância é o primeiro laboratório político onde o gênero é testado, corrigido e punido”.

Mas será que é possível desfazer esses processos políticos de naturalização da violência? E se a normatividade deixasse de existir nos nossos primeiros anos de existência? Se conseguíssemos nos livrar desse bicho medonho que nos assombra desde tão cedo? O que é que a gente seria? O que é que a gente poderia ser?

Todas as pessoas que hoje entendem que fazem parte da sigla LGBTQIAPN+ talvez tenham perpassado questões sobre isso nas inúmeras vezes em que pensaram sobre sua identidade, e tem aquelas que nunca conseguirão se declarar parte da sigla por isso mesmo, também. No meio interiorano, fora das grandes metrópoles e meios letrados, tem aquelas que sequer sabem sobre essa sigla, mas se soubessem o que significa talvez pudessem dizer que fazem parte dela.

Independente de siglas, as pessoas são, existem e amam — e nomeamos em letras porque precisamos nomear, mas também morremos de medo de criarmos novas normas de existência. Elas são, existem e amam mesmo com um volume imenso de atribuições alheias que no passar do tempo vão se agarrando e marcando em cada pedacinho do corpo.

Por quem aquela tia solteirona sentia desejo? O que fazia aquele primo afeminado que virou padre delirar de emoção? O que fazia com que aquela mulher gostasse mais de ficar com a vizinha da roça do lado do que com a família? O que fazia aquele senhor que só quando branqueou os cabelos teve coragem de assumir que amava batom, que adorava outra roupa que não aquela que aparecia em público todos os dias? Quantas pessoas que deixaram de ser, amar e existir por conta desse arquivo/carga no corpo, né?

Estamos falando do meio interiorano porque é de lá que viemos e ainda mantemos nossa vida com as construções de subjetividades. Mas sabemos que as questões das “bichas do mato”, citando aqui Audrian Cassanelli, tem os mesmos problemas que as de cidade grande, o que muda é a dimensão e o impacto, e claro, cada pessoa com as especificidades das suas dores e alegrias.

Quanto menor o espaço mais visível ficam as coisas, e, na ausência de redes e pessoas com similaridades, são produzidas novas camadas de ameaças simbólicas. Por isso, escolhemos criar baluartes para nossas fortalezas e simbologias, outros universos para transformar nossos sentidos procurando pessoas com similaridades, e aqui, isso acontece a partir das imagens em movimento.

Interseccionando vídeo, cinema e tecnologia como formas de experimentação no campo das artes visuais, as três obras desta exposição atuam como dispositivos de fabulação que atravessam infância, religiosidade e processos subjetivos, ativando experiências que oscilam entre o pessoal e o coletivo.

No trabalho Vem de Berço, a repetição de ações constrói uma temporalidade expandida, na qual passado, presente e ultra futuro coexistem numa coreografia da memória. As quatro pessoas criam seus movimentos combinando uma lembrança e um vontade-sonho.

O Porão, investiga o arquivo íntimo e familiar como espaço de silenciamento e aborda memórias infantis atravessadas por tabus e descobertas, evocando reflexões sobre sexualidade, escuta e formação e os limites delicados entre experimentação e abuso. E, fechando a trinca, do peito da pele dialoga com críticas contemporâneas à aliança entre religião e política no Brasil, expondo o que Paul B.

Preciado identifica como regimes de produção de corpos normativos e dissidentes. Nele, o poeta Francisco Mallmann, recita de forma litúrgica enquanto a cruz monumental, símbolo central da colonialidade brasileira, é ressignificada a partir de uma estética que combina liturgia, cultura pop e performatividade bicha.

São esses três trabalhos que juntos chamam pra gente se esses manifestos pessoais, talvez como retrovisão para pensar no que compõe nossos corpos ou em uma analogia/mão dupla: olhando para o que é refletido, nos espelhando e sendo reflexo para outros corpos-campos-de-batalha. Pois sabemos que a norma e aqueles que a inventaram tem organizado o mundo para nos matar lentamente, e, diante disso, nossa tarefa diária é inventar modos de permanecer.

Desfazendo arquivos e inscrições, criando e abrindo espaços para o que queremos de nós.

Infância, fé, identidade, reconhecimento e desejo são palavras que permeiam a exposição, representações sobre nossos direitos de habitar e ser nesse mesmo mundo, no mato ou no asfalto, apostando no espaço artístico como lugar íntimo, de confronto, de pertencimento e principalmente de festa. Como Nego Bispo sugeria “organizando a raiva e defendendo a alegria”.

Gabi Bresola, curadora

Vem de Berço projetado na exposição: a drag de rosa no centro da cenaVisitante sentada no banco diante do monitor vertical com do peito da peleTela com O Porão na exposição Entre Ecos e Corpos

Fotos: Ombu Produção / Rachadura Visual

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