Pular para o conteúdo
PT EN ES
Bastidores ·

Infância LGBT no interior vira videoinstalação em Joaçaba: a origem de Vem de Berço

Participante de Vem de Berço com saia preta e camisa manchada de tinta no cenário de casa da videoinstalação, em Joaçaba

Antes de ganhar o nome Vem de Berço, a videoinstalação da Rachadura Visual sobre infâncias LGBTQIAPN+ no interior se chamava Casa do Agricultor. O projeto de Rudolfo Auffinger foi contemplado pelo edital LPG D+ da Lei Paulo Gustavo em Santa Catarina e nasceu de um convite aberto à comunidade de Joaçaba e região: contar como foi crescer sendo LGBTQIAPN+ numa cidade pequena.

Um processo participativo

A criação começou com um levantamento entre pessoas conhecidas e uma convocação pública para pessoas LGBTQIAPN+ de Joaçaba e região que quisessem participar da videoperformance. Em conversas, foram reunidas histórias de infância, vivências e enfrentamentos.

Esses relatos moldaram o roteiro, combinando depoimentos pessoais e ações executadas diante da câmera. Das experiências compartilhadas também saíram as frases preconceituosas e de julgamento que passaram a integrar a obra.

A gravação foi pensada para um estúdio que simula uma casa de madeira típica do Sul do Brasil, para trazer a familiaridade do ambiente interiorano.

Da infância à vida adulta, numa mesma sala

As referências do projeto são o curta Tango (1981), de Zbigniew Rybczynski, e Os Raimundos, os Severinos e os Franciscos (1998), de Dias & Riedweg. A proposta reúne pessoas LGBTQIAPN+ numa sala de madeira, realizando ações cotidianas e estigmatizantes, enquanto a câmera passeia entre elas.

O espaço representa diferentes cômodos de uma casa e acompanha a passagem do tempo: brincadeiras de criança, vivências adolescentes e a vida adulta. As ações simbolizam a trajetória de quem enfrentou repressão por sua sexualidade desde cedo.

As vozes que julgam

Na instalação, as frases de repreensão saem de caixas de som e a casa se transforma no mundo. Elas não vêm só da família, mas de fontes do dia a dia: colegas de trabalho, vendedores de rua e até a secretária da escola.

Mesmo assim, as pessoas em cena seguem vivendo, sonhando e cumprindo suas atividades. A obra afirma que a identidade LGBTQIAPN+ não é uma fase passageira e convida o público a rever crenças e atitudes discriminatórias.

Arte fora do eixo, com fomento público

Acontecer no Oeste catarinense, com espaços pouco utilizados e artistas de baixa visibilidade, é parte da proposta. Rudolfo Auffinger lembra que projetos assim só se tornam possíveis com editais estaduais ou federais, porque patrocinadores locais costumam hesitar diante de experimentações que confrontam padrões sociais.

O edital LPG D+ foi operacionalizado pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC):

  • inscrições de 27 de outubro a 5 de novembro de 2023;
  • valor total de R$ 11.820.000;
  • categorias que iam da Experimentação Artística às Ações de Qualificação e Formação.

O que veio depois

O projeto virou Vem de Berço, videoinstalação em loop com quatro personagens de gerações diferentes. Ela foi exibida na Casa de Cultura Rogério Sganzerla, como contamos nesta notícia, e depois integrou a exposição Entre Ecos e Corpos.

Para levar o tema às salas de aula, veja também o material educativo gratuito contra a LGBTfobia e o bullying. E conheça o trabalho da Rachadura em documentário e registro de causas.

Mais em Bastidores