Em 2020, em Curitiba, Keythe Tavares juntou poemas, colagens e uma pergunta que segue sem resposta fácil: o que altera o peso das coisas? A publicação digital, lançada pela Rachadura Visual, pede leitura lenta. Separamos três poemas para começar.
Quem é Keythe Tavares
Keythe Tavares é poeta, artista visual e integrante da Rachadura Visual. É de Goiás, do cerrado que volta e meia brota nos seus versos, e já foi atendente, caixa, cabeleireira, secretária, livreira, cozinheira e garçonete; a poesia atravessou todos esses ofícios. Na Rachadura, é trabalhadora da imagem: audiovisual, fotografia digital e analógica, colagem manual. Dirigiu e roteirizou o videoclipe em colagem egoísta e criou até o caroço, poesia e colagem que reivindica o corpo sapatão, o prazer e o amor-próprio. Em 2021, estreou em livro com heranças, pela Editora Urutau.
A publicação
o que altera o peso das coisas? é um ajuntamento de textos poéticos cujo título pede duas coisas antes de qualquer resposta: um olhar gentil e atento para si e para a outra pessoa, e ouvidos abertos para perceber que, quando o contexto muda, muda também a grandeza das coisas. A capa e as colagens são da autora, como o rabo de baleia que mergulha num túnel de concreto. A revisão é de Keythe e Myllena Magalhães. O livro abre com uma dedicatória que já diz muito: “a ti que / assim como eu / apesar do peso das coisas / não desistiu de viver. / há mais vida em ti / do que pensas.”
São poemas curtos e longos, em minúsculas, quase sem pontuação, que vão do banho de chuva à sertralina, da amoreira à insônia ao lado de quem se ama. Nossos três favoritos:
1. o que altera o peso das coisas?
qual a distância das coisas?
ando dez passos que parecem 50
qual a distância real das coisas?
quando me chama para tomar
uma cerveja no fim da tarde
queria que levasse em conta que
mesmo as nossas casas ficando
— em direções diferentes —
a exatas cinco quadras do bar
tenho pra mim que é muito mais
que issoKeythe Tavares
O poema que dá nome à publicação mede a distância com o corpo, não com o mapa. Cinco quadras viram muito mais do que isso quando o convite para a cerveja não leva em conta o que pesa em quem caminha. É a pergunta do título virada do avesso: o contexto altera a grandeza das coisas.
2. raízes (trecho)
acordei e era 1998
o pé de manga
dava muita manga
sombra esconderijo
fuga e até casa
chupei tudo até
o caroço que
lançados na terra
cresceram frondosos
(…)
na mesma época
e se espera a
primeira fruta cairKeythe Tavares
Aqui o cerrado aparece inteiro: panela de pressão, milho cozinhando, o pé de manga que é sombra, esconderijo, fuga e casa. Chupar a fruta até o caroço e ver o caroço virar árvore é uma imagem de memória e de herança que reaparece, anos depois, no título de até o caroço e no livro heranças.
3. orar é o abrir do coração a deus como a um amigo (trecho)
já roguei a deus
que removesse de mim a
vontade de transar com mulheres
ou já que se dizia onipotente
que através de um milagre me
transformasse em homem de uma vez
pra que eu pudesse assim
viver sem culpa o amor
(…)
argumento aceitável
de certo eu mesma sou deus
ou melhor, deusa.Keythe Tavares
O poema mais longo da publicação é uma lista de orações: pela chave perdida, por um marido bom, pelo feijão que precisa render. Até chegar ao pedido mais duro, o de deixar de desejar mulheres. A virada final não tem raiva, tem humor e soberania. Quem respondia às preces era ela mesma. Deusa.
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o que altera o peso das coisas? é uma publicação digital com licença Creative Commons (atribuição, não comercial, sem derivações): pode ser compartilhada em qualquer meio, sem fins lucrativos e com os créditos. Baixe o PDF da publicação e conheça o projeto em o que altera o peso das coisas?. Para continuar lendo Keythe, procure heranças (Urutau, 2021).
